domingo, 25 de março de 2012
Oscila-te
terça-feira, 13 de março de 2012
Carta de Tudo
Torna-te de repente tão familiar, tão intrínseca à todos os pedaços de mim...
Parece fazer parte de meu clã de ancestrais ou quem sabe sejas a parte gêmea a mim ocultada durante tantas eras.
O que sei, ou melhor, o que tenho descoberto, soa como se já possuísses meu mapa e um método que leva a caminhos meus...
És grande parte; és imenso tanto de tempo; és chaves de caminhos mais longos, difíceis e belos. Mas és, sobretudo a força da dignidade que emana para os meus poros a certeza da fé que possuo: em Deus, em mim, em nós. Cravo-te em mim todo dia não como um critério, mas como uma afirmação do que á cada dia fazes brotar dentro de mim...
(Por: Livia Queiroz)
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
A-Briga.
Dentro do quarto a ala cinza se estica com facilidade. Entre os corpos há uma fronteira invisível que oscila entre o hostil e o desconfortável. Ninguém se des-culpa... A culpa vem sempre do lado oposto.
Dedos em riste acusam-se opostos sem sequer pensar à respeito. Derramam as “quebras” escritas com sangue. Olhos vermelhos e sempre molhados fuzilam-se em meio à penumbra de tantas acusações, à tantas falhas apontadas repentinamente.
Murchas, as rosas, que a tudo assistem abismadas, começam o autoflagelo. Pétala por pétala. Como é misterioso o mundo dos amantes!
Por horas e horas e horas o ar é cortado por verbos ameaçadores e monstruosos adjetivos de fundo proibido de gaveta. Como é tortuosa a vida de quem ama!
O primeiro corpo, exausto, senta-se na cama buscando alguma energia e segurança, ou repouso talvez. Tomba a cabeça pra trás, olha pro alto e procura por Deus. Um soluço comprimido concorda (com) e rasga o resto do que já foi dito. As mãos tentam abafá-lo inutilmente.
O segundo corpo também exausto sugere que cada um siga pelo caminho que achar melhor.
O primeiro corpo, o exausto número um, concorda dando de ombros, mas não se move...
Ficam lá, os dois, o primeiro sentado de costas para o segundo que permanece de pé. Ficam assim, ensaiando despedida. As temperaturas dos corpos começam a voltar o normal e sobra um pouco de dor de cabeça.
Depois de algum tempo, o segundo corpo também desaba na cama, covarde, coitado! Sem coragem e sem vontade de desmontar os sonhos. Como num balé mal feito, ambos se deitam. A energia do quarto amante se encontra pesada demais para meros mortais estafados. Coitados!
O primeiro se encolhe. Tem medo... medo...
O segundo se cala. Tem vergonha... apenas isso...
Tempos depois, vem a brisa calada do fim da tarde levar toda a sujeira gritada no ambiente recente-cinza. Um último raio de Sol ilumina os olhares que se encontram como se fosse a primeira vez. Tudo é novo. Tudo é silêncio. Tudo é de novo amor. De repente. Nada é dito, apenas caem da cama as roupas sujas de palavras em lama e os corpos novamente puros dão de beber às quase mortas rosas.
Como é perigoso o mundo dos amantes!
(Por: Livia Queiroz)
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Burla-os
Eu não quero falar a respeito, não quero que ninguém saiba, não quero fazer alarde, nem ser vítima, nem covarde, nem ser “à mais” no meio de tantos comuns...
Mas esses velhos meus conhecidos, os versos, procuram as brechas que por displicência deixei no meu intacto, por conta de uma estafa que acometeu meu coração.
Logo agora que havia desistido da poesia... Logo agora que fiz um pacto sujo, e troquei todos os possíveis versos para ter minha alma de volta... Logo agora que estava quase lá, quase mais que próximo...
Pedi a Deus a racionalidade pura ao invés da companhia dos pingos de chuva e de sua representação literária, mas aí, Ele me prega uma peça e manda novamente o sutil, o emaranhado, o confuso, a agonia. Isso deve ter um motivo, um por que...
Mas eu não quero que ninguém saiba.
Ainda dói dói dói falar disso, pensar nisso, lembrar disso. Não é insuperável, e eu só quero seguir adiante, e quando a gente quer muito e quer com todas as forças, a gente consegue sem perceber. Talvez porque a magia seja algo uno e inerente a qualquer ser banhado de sumos de fé. Ou talvez simplesmente, porque é Deus quem sabe o que faz e nós achamos que somos parte de um caminho quando na verdade um caminho é parte nossa.
Mas eu não quero falar á respeito.
Quero burlar esses versos, e isso que me vela noites e mais noites será sorrateiramente apagado antes de ser escrito.
Cara,eu não sei mais o que dizer, mas Deus sabe o que faz!
Por: Livia Queiroz
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Epílogo nº 09
Mas apenas isso: queria que acontecesse partindo de você.
É isso! Precisa acontecer. E agora, não me refiro ao sumiço de saudade. Refiro-me ao restante, à luta pela “não monotonia”... ao que parece esquecido.
Esqueci como é isso, como funciona, como tem que ser. Caramba, esqueci e talvez você também... E quando eu esqueço, honey, fica uma dúvida em relação aos desenrolar dos fatos. Mas os fatos não mentem. E as mentiras não surtem efeito.
Preciso de outra razão e de outra nova solução.
Coisas que “não foram” em momento oportuno, também não serão agora que os cadeados se fecharam e as chaves (todas elas) enferrujaram.
Por: Livia Queiroz
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Epílogo nº 8
Você diz: "Vai ser feliz! Se livra de mim. Vai ficar tudo bem!"
Mas aí você pensa: "Caramba, eu queria passar o resto de minha vida com ela", mas percebe que não consegue mais. Qu talvez não haja mais jeito, nem disposição.
Sobe um nó na garganta, o peito n encontra ar e a única coisa que te passa pela cabeça é correr e abraçá-la com toda a forçaa que possui. E entende, por fim, o que o FIM quer dizer, ou melhor entende o que O FIM quer dizer pra você.
Por: Livia Queiroz
Em: 03/01/2012
sábado, 31 de dezembro de 2011
Túnel de Tempo
| Ao meu Avô Jaime Queiroz. |
Antes eu não era exatamente feliz.
Mas não era um “não exatamente feliz” com essas definições prontinhas e soltas por aí. Era um entorno singular...
Eu colecionava solidão, mas sem nenhuma tristeza por isso, sem dor ou reclamação, e hoje sei que o fazia apenas com poesia. Antes – que só agora começo a me recordar – eu fazia versos em recortes de revista, em almanaques, em álbuns de figurinhas... E fazia uns poetiscos – que é como eu chamo os meus poemas pequenos da infância – fazia poetiscos de cabeça, jurando que no dia seguinte ainda me lembraria dele e escreveria. Mas eu ainda nem sabia escrever e o único poetisco que me lembro foi um que eu nem fiz... O do dia que eu vi, pela primeira vez, o girassol (que sempre esteve ali) de minha vó:
- Um Girassol! – exclamei.
- É. Bonito né? – disse minha avó – Mas não pode mexer senão ele não vai conseguir mais enxergar o Sol.
Lembro-me que depois disso, meus olhos se encheram d’água. Eu pensei:
“Que Triste!
Gostar tanto do Sol
e ficar olhando pra ele o dia todo.
O Sol queima os olhos.
Isso é muito triste.
Eu nunca ia gostar tanto assim.”
Pode não parecer, mas havia entre eu, minha avó, meus olhos com lágrimas e o Girassol, uma poesia pronta para brotar. Uma angústia linda perpassou o meu peito, eu lembro como se fosse hoje. E nem as palmeiras, nem as florzinhas, nem as outras plantinhas do pequeno jardim de minha avó me causaram tanta curiosidade. E acho que, por causa disso, e por não ter encontrado uma resposta em poesia, Girassóis me emocionam até hoje.
Eu não tive o que se pode chamar de momento único. Todos foram antes. Não tive um tempo de criança exatamente feliz, nem exatamente triste: corri, caí, dancei, inventei, e até hoje tenho o meu avô... E até hoje o cheiro do colo dele é o mesmo cheiro que sinto quando salta, de trás da porta do meu “todo eu de hoje”, o tal do bichinho em larva de codinome saudade. E foi o meu avô que me ensinou sem usar palavra nenhuma quantos tons a vida possui, sobretudo, nos fins de tarde dos domingos.
Um dia, ainda na parte menor da vida, percebi que quando chovia o meu peito apertava e eu me sentia adequadamente pequena e descontente com algo que eu julgava ser culpa do Girassol. Imaginava que talvez ele o Sol tivessem brigado, e esse segundo decidira “dar um tempo”. Ou quem sabe o Sol estivesse de “saco cheio” de ser espiado por milhões de Girassóis em todo canto. Meu coração ficava espremidinho e cheio de dor quando chovia e a única coisa que queria era a minha cama. Só, muito tempo depois, eu descobri que eu não era a única a caçar esconderijo quando vinha chuva, e aprendi também (com meu avô e o cheiro do colo dele) que a chuva servia.
Para mim, todas as chuvas... Todas as quedas... Todas as correrias... As travessuras... E os tempos no colo de meu avô me mostraram um poema que eu jamais conseguirei sequer rabiscar. Esse poema está dentro de mim agora enquanto escrevo tudo isso e ele deixa que meus olhos se molhem e vez ou outra eu solte um riso de canto de boca e um suspiro em verso para diminuir a frustração por não conseguir escrevê-lo e para confirmar a não exata felicidade que vivi naquele tempo. Todos esses “coloridos retalhos”, são, na minha memória, os que mais se repetem.
Antes eu não era exatamente nada. Mas não com um sentido pejorativo. Eu não era nada, porque eu não conhecia direito a mania de definição ensinada pelos adultos. Essa mania e necessidade de se definir algo para que, esse algo, possa ser classificado e disposto junto dos seus similares. Não entendia de logística de sentimentos ainda. E acho que foi por isso que durante anos, muitos anos, os sentimentos, os pensamentos, as minhas impressões de mundo não foram batizados e ficaram todos juntos no cômodo único construído displicentemente por dentro da casa “eu”.
É! Um só cômodo para todos, e eles se entendiam muito bem.
Até que o monstrinho traiçoeiro da idade me viesse ocupar a mente e com a mania compulsiva de organização, confundisse tudo (às vezes acho que minha idade sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo, com a mania de definição, e arrumação. Ora, nem tudo precisa ser tão certinho!).
Eu copiava...
Via meu avô fumar e queria também... Via a minha tia beijar o namorado e também queria beijá-lo... Imitava os passos de dança... As obrigações domésticas... As brigas... Imitava Tudo. Não fui exatamente infeliz por isso. Tive ótimas referências.
No colo de vô, eu escutava Cartola, Nelson Gonçalves, Pixinguinha e ganhei as poesias de Castro Alves antes mesmo de eu saber do Navio Negreiro.
Meu Avô é um poema todo por si só – e sem precisar de definição.
Mas, no fim das contas, eu não tinha uma definição daquele estágio presente.
(Por: Livia Queiroz)
Escrito em 22/08/2011