sábado, 11 de dezembro de 2010

Ascendente Câncer ( Parte 15 )

- Quem é?

- Oi Natália. Você não me conhece. Sou Ricardo, psicólogo e amigo de Lara, gostaria de falar...

- Não tenho nada pra conversar sobre Lara, e...

- Calma. Gostaria de falar com você. Deixe-me subir ou então desça até aqui, tanto faz. É importante. Tenho uma coisa que Lara gostaria de te entregar.

- Não. Obrigada!

- Natália, por favor.

- Estou muito ocupada.

- Não vou tomar muito de seu tempo. Cinco minutos, eu prometo.

- Tudo bem. Suba. – disse a contragosto, mas por algum motivo não conseguiu dizer não.

Ricardo subia o elevador abraçado à caixa, e imaginando se Lara estava feliz com isso, afinal, era tudo o que mais queria: falar com Natália, e agora falaria, ainda que fosse através de uma simples carta.

- Oi, muito prazer Natália. Estive uma vez aqui com Lara.

- É eu sei.

- Como sabe? – perguntou percebendo que Lara tinha razão quando afirmou que Natália estava em casa e não a quisera receber – Seu namorado falou apenas com Lara e disse que você não estava.

- Você disse que seria breve. – desconversou – O que quer?

- Claro. Vim te entregar isso. – disse estendendo a caixa.

- Diga a Lara que não me agrada a idéia de ela ficar me mandando presentes. – falou, pegando a caixa e se mostrando contrariada.

- Espero que goste. – e levantando-se Ricardo foi seguindo em direção à porta.

- O que Lara pretende com isso? – falou indignada, fazendo Ricardo se virar e sentar novamente à sua frente.

- Ela queria que você soubesse tudo o que ela queria dizer...

- Ela me disse o que queria!

- Ela disse coisas num momento de raiva. Coisas das quais se arrependeu amargamente.

- Sei...

- Fiz o que vim fazer. Vou indo, você está ocupada.

- Onde ela está? No seu carro? Peça pra que ela suba.

- Não. Ela não está lá embaixo.

- Avise a ela que passo por lá amanhã.

- Natália – disse Ricardo com voz serena – acontece que Lara estava muito doente.

- Como? Vocês estiveram aqui e ela estava bem!

- Como sabe? Nem quis nos receber... Fato é que Lara estava muito mal.

- Tava doente de que?

- Câncer.

- Hã? – assustou-se. – Isso não faz sentido. Ela veio aqui...

- Ela não estava bem, mesmo. Pra te falar a verdade eu vim com ela porque ela já havia perdido a visão, e aquela foi a primeira vez que ela saiu de casa depois que isso aconteceu.

- Não posso acreditar. Meu Deus! – disse sem segurar as lágrimas que revelavam o quanto ainda amava a sua Larinha – Em que hospital ela está? Me leve lá agora, por favor.

- Natália, eu sinto muito.

- O que? O que você sente? – gritou descontrolada, ao perceber os olhos de Ricardo marejarem.

- Lara faleceu há duas semanas.

Natália estacou o choro , abafou a voz com uma das mãos e ficou de olhos esbugalhados olhando pra Ricardo, até que perguntou num misto de dor e raiva:

- O que você está dizendo?

- Você entendeu o que quis dizer. Lara faleceu por conta de um tumor no cérebro. – complementou.

Natália não conseguia raciocinar direito. Chorara copiosamente, Ricardo pegou água e deu-lhe para que ela se acalmasse, entre uma lágrima e outra ela dizia:

- Por que vocês não me avisaram? Por quê?

- Não sabíamos o que fazer...

- Santo Deus! Meu bebê... Você levou meu anjo...

Natália estava desnorteada e nada que Ricardo dissesse amenizaria a dor que sentia naquele momento. Quando ela por fim se acalmou, ele sentiu que já devia ir.

- Eu preciso ir. Tá aqui meu telefone – falou enquanto colocava o cartão sobre a mesa de centro. – Se precisar de alguma coisa me ligue...

- Obrigada – sussurrou Natália, sem forças nem para se levantar e acompanhá-lo até a porta.


POR: LIVIA QUEIROZ


(CONTINUA...)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ascendente Câncer ( Parte 14 )

O que se seguiu foi o ritual macabro de resolver as “coisas” e avisar às pessoas. Silvia tirou as últimas forças que tinha e assumiu o controle de tudo, afinal, se já tinha chegado até ali, não era naquele momento que ia enfraquecer. Os amigos de Lara, bem como a mãe, foram avisados. A última não compareceu nem ao velório nem ao enterro e Silvia achava melhor assim, por que Lara nunca se mostrou disposta a perdoá-la.

Os dias que se seguiram após a morte de Lara foram pesados. O céu ficara nublado e Silvia precisou de muita força para levantar todos os dias. Resolvera sair do apartamento de Lara e voltar dali há alguns dias para arrumar tudo, enquanto pensava num jeito de contatar Agnes, sem que ela desse um ataque, para saber o que seria feito com as coisas e com o apartamento de Lara.

Uma semana depois, Silvia já voltara ao trabalho, e embora ainda abatida, sabia que tinha de continuar. E lembrava-se do pedido de Lara para que tentasse a felicidade.

Naquela quarta-feira, saiu do trabalho e foi até o apartamento de Lara. Precisava colocar as coisas em ordem, arrumar as roupas, os documentos e tudo o mais que precisasse...

Girou a chave na fechadura e por um instante sua respiração ficou suspensa, o coração acelerou e um soluço doído povoou o ambiente quando ela abriu a porta. Apoiou-se na parede e seguiu para o sofá, do outro lado da sala, sentou e ficou até se acalmar.

Fato é que não lhe agradava em nada a idéia de ter de remexer as coisas de Lara e se desfazer de quase tudo.

Começou pelas peças de roupa, e em meio ao choro baixinho, foi colocando uma a uma na mala roxa que Lara adorava. As roupas que não couberam na primeira mala, foram para a segunda e quando esta já estava cheia também, Silvia parou de arrumar. Deixou as que restaram lá, iria pensar nelas depois.

Encontrou no canto do armário uma caixinha marrom decorada com flores amarelas e fita dourada. Por um instante hesitou, mas por fim abriu.

Dentro da caixa havia fotos de Lara, bilhetes, cartões, até conchinhas que ela colecionara um dia... No fundo da caixa um envelope azul marinho, escrito com tinta prateada “Natália”.
O celular de Silvia tocou nesse momento, e ela largou a caixa e voltou para a sala:
- Alô.
- Oi Silvia. Como você está? – perguntou Ricardo.
- Estou bem, na medida do possível. Vim aqui no apartamento de Lara arrumar as coisas dela e... – não conteve as lágrimas.
- Calma. Você quer que eu vá pra aí?
- Não se incomode. Eu me viro por aqui, é que ainda é muito difícil olhar as coisinhas dela e saber que ela...
- Não é incômodo. Fique onde está. Eu já chego aí.
- Tudo bem.

Silvia desligou o celular e voltou ao quarto, para a caixa, para o envelope... Sentiu curiosidade, quis ler, mas lembrou-se de repente do olhar de Lara quando reprovava alguma atitude sua. Guardou tudo dentro da caixa novamente, e a levou para a sala colocando-a sobre a mesinha de centro. Em sua cabeça a dúvida: contatar ou não Natália?

Ricardo chegou com semblante preocupado, encontrou Silvia ainda chorosa, embora mais calma. Sentaram-se no sofá e conversaram um pouco, lembraram de Larinha com uma saudade cheia de amor.
- Boa garota – falou Ricardo com a voz se arrastando.
- É.
- Que caixa é essa? – perguntou, após notar a presença daquela caixa sobre a mesinha à sua frente.
- Achei no armário quando tava arrumando. Tem umas fotos, uns bilhetes e um envelope que parece conter uma carta dentro. Não sei direito, não abri.
- Por que não?
- Porque é pra Natália.
- Eu posso ver a caixa?
- Claro.

Ricardo viu todo o conteúdo da tal caixa, e achou também o envelope onde havia o nome de Natália escrito.
- Você vai entregar? – perguntou curioso
- O que acha?
- Acho que essa carta foi feita pra ser entregue e lida.
- Não sei como vou fazer isso.
- Eu sei onde Natália mora. Posso levar se você quiser...
- Ótimo, pode levar então – disse Silvia se levantando – vou fazer um suco pra gente.
- Não precisa. Eu vou levar agora.
- Tudo bem – disse desapontada – Leve a caixa e tudo o que está aí dentro. Acho que ela queria dar tudo isso aí a Natália.
- Tem certeza?

- Não. Mas leve assim mesmo!


POR: LIVIA QUEIROZ

(CONTINUA...)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Ascendente Câncer ( Parte 13 )

Lara já não mais falava em Natália. Havia aceitado a sua decisão desde que não fora recebida pela ex. Mesmo tendo Silvia tentado convencê-la de que fora verdade a suposta saída de Naty, Lara fora incisiva ao dizer:
- Tá na hora de eu me preocupar comigo. Fiz tudo o que pude!

Se por um lado Silvia se sentia aliviada por ver Larinha sofrer menos(aparentemente), por outro se preocupava e se entristecia com o que acontecera na ida ao apartamento de Natália. Lara, contara superficialmente, é verdade, mas pelo que ouviu, e pelo que Ricardo contou-lhe depois, ela sabia o quão magoada Larinha devia estar.

Lara estava tendo uma semana dificílima. As dores não mais paravam e ela foi internada mais uma vez. Passava o dia entre dores e cochilos. Emagreceu bastante, os olhos afundaram contornados por um arroxeado sombrio. E por conta das dores, delirava, se debatia, gritava. Quase nada mais parava no estômago. Quem conhecesse Lara de longa data, se assombraria com o estado da garota. Ela que sempre fora cheia de vida, estava agora uma caricatura de morte pra ninguém botar defeito.
- Vem cá. Deita aqui comigo. – pediu Lara baixinho.
- Aí? – assustou-se Silvia, com receio de deitar na maca junto à Lara.
- É. Vem. – pediu quase que sussurrando por conta da dor de cabeça.
- Tá. – Disse Silvia se acomodando com cuidado
- Você sabe que eu vou ter que ir embora né?
- Sei, mas Lara, não pense nisso...
- Penso sim. – interrompeu-a – E quero que você saiba que você foi a melhor pessoa que eu conheci em minha vida. E quero que saiba que eu também te amo. Que você foi a melhor companheira que eu poderia ter tido e que eu fui uma estúpida por não ter te dado o devido valor. Sortuda a mulher que cruzar seu caminho.
- Larinha, você me fez muito feliz! Eu sei que não me amou como mulher, mas foi minha amiga, minha companheira. E a melhor época da minha vida, sem dúvida começou depois que te conheci.
- Eu sinto ir embora assim. No meio do show – disse quase sorrindo e de olhos marejados. – E sinto também não estar agora olhando em seus olhos pra dizer tudo isso.
- Você está olhando em meus olhos! – disse Silvia deixando que uma lágrima caísse. Elas estavam deitadas de lado, uma de frente pra outra e abraçadas, de modo que os olhos de Lara pareciam fixos no dela.
- Durante esse tempo que você ficou lá em casa, cuidando de mim, se doando, por muitas vezes eu não te dei o valor que você merecia. Ficava falando de minhas dores, meus problemas que sequer questionei quais são as SUAS dores. Porque pra mim, agora, é isso que importa.
- Lara, eu...
- Quais são?
- Não sei... – gaguejava sem saber o que dizer, ou melhor, tentando encontrar uma forma de dizer...
- Pode falar. Eu quero saber! – ordenou.
- Dói não ter tido mais tempo com você. Doeu quando você se apaixonou por outra mulher, uma que nem te amou como você merece. Dói saber que vou ficar sem você, que não posso amenizar suas dores, que não posso tirar isso de você. E pior dói estar e não estar na sua vida.
- Me desculpe. – disse abraçando-a com força – eu, dentro de meu mundinho, não enxerguei você. E por isso, quero agora, que me prometa que você vai ser feliz. Se eu tivesse como reparar todas as vezes que negligenciei o seu amor, tenha certeza que eu o faria, mas saiba também que nunca foi intencional.
- Eu sei. E por isso o que eu sinto nunca mudou!

Ficaram conversando por horas aquela noite. Por fim, Lara adormeceu e Silvia voltou pro seu sofazinho ao lado da maca. No meio da madrugada, Lara despertou em meio a dores terríveis, os enfermeiros vieram, tentaram ajudar aumentando a dose da medicação e a dor não cedia. O tumor estava grande demais e pressionando o cérebro.

Lara suava frio, e se contorcia tamanha a dor que sentia. Silvia foi retirada do quarto para que os enfermeiros e Dra. Lucia, que havia acabado de chegar, pudessem examiná-la melhor. Ficaram lá dentro por muito tempo, e Silvia podia ouvir do lado de fora, os gemidos de Lara que faziam seu coração gritar desesperado. Em poucos minutos Ricardo chegou e encontrou Silvia pálida e aflita, ao ouvir o sofrimento de Lara, abraçou Silvia com ternura.
- Vim assim que eu ouvi seu recado. Vai ficar tudo bem.
- Estou com medo de perdê-la. Eu sabia que ia acontecer, mas é assustador quando a hora parece estar chegando.

Sentaram-se e ficaram esperando alguma notícia. Minutos depois tudo voltou à calmaria. Dra. Lucia saiu do quarto e Silvia se levantou rapidamente sem esperar nenhuma palavra da médica.
- Passaram as dores? Ela dormiu?
- Silvia – o semblante de Lucia era triste – Fizemos tudo que podíamos, mas sabíamos que...
- O que você tá dizendo? – gritou Silvia enquanto as pernas não mais a sustentavam.
- O tumor estava muito grande. E nós sabíamos.
- O que quer dizer? – berrava Silvia enquanto Ricardo a segurava, apoiando-a – Diga! Diga!
- Lara acabou de falecer. Eu sinto muito – falou à medica enquanto ia explicando os motivos que levaram Lara à óbito.

Tudo ficou escuro e por um segundo Silvia pensou que também estava perdendo a visão. Tombou a cabeça pro lado e desmaiou.

POR: LIVIA QUEIROZ

(CONTINUA...)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ascendente Câncer ( Parte 12 )

Não havia mais clima para Lara conversar com Silvia à respeito de Natália. Sentia-se mal por saber que Silvia ainda a amava e por não poder retribuir tal sentimento, em compensação mudara sua maneira de agir, tornando-se mais compreensiva e menos egocêntrica.
O domingo chegou cheio de Sol. O céu, que Lara não mais podia observar sorria para ela, que parecendo entender do sorriso, acordou cheia de coragem, e muito disposta. Silvia estranhou vê-la de pé cedo, sentada no sofá da sala, arrumada. Ela que quase não saía do quarto por medo de tropeçar em alguma coisa, mesmo Silvia já tendo tirado todo obstáculo do caminho.
- Acordou cedo. Que bom! Tá linda, vai sair? – perguntou admirada
- Pretendo. – respondeu, Lara, ansiosa. – Preciso ligar pra Ricardo, mas não sei o número de cor e nem ia adiantar pegar o cartãozinho dele...
- Mas hoje é domingo, Lara. Não sei se ele trabalha...
- Por favor, Sil, liga.
- Ligo sim.

Silvia discou o número e foi pra cozinha, imaginou que Lara quisesse uma consulta com Ricardo e não ia ficar escutando a conversa entre os dois.

- Desculpa Ricardo. – começou, meio sem graça – Eu sei que você nem trabalha hoje, mas é que... – pausou a fala, tentando pensar na palavra certa.
- É que...
- Queria ir até a casa de Natália. FalaR com ela, já que não poderei vê-la. – disse quase rindo da própria frase.
- Acho uma boa idéia.
- Mas tem mais uma coisa.
- Pode falar.
- É que eu não posso chamar Silvia pra ir comigo. E também não consigo ir sozinha, e...
- Entendi. Vou me arrumar e passo pra te buscar.
- Obrigada Ricardo, você é um anjo.
- Anjo? Eu? Não diga uma asneira dessa. – disse soltando uma gargalhada.

Meia hora depois ele chegou ao apartamento de Lara. Ela estava do mesmo jeito que quando ligou pra ele: sentada no sofá da sala, esperando. Estava linda. Despediram-se de Silvia, que não entendeu nada, e saíram. Era a primeira vez que Lara saía de casa após a perda de visão. A sensação era estranha: ouvir os carros, as vozes das pessoas, até os gritos dos vendedores ambulantes, os carros de som, sem ver as cores, os rostos...

Ricardo seguiu o caminho que Lara dera como endereço, em poucos minutos estavam frente ao prédio que Natália morava.
- Aperta o 415. – pediu Lara.

Ricardo assim o fez e em seguida ouviram uma voz masculina atender o interfone. Lara estremeceu, devia ser o tal namorado, mas sabia que corria esse risco e se chegara até ali tinha de ser forte. Ricardo percebeu, e segurou seu braço passando certa segurança.
- Natália, por favor – pediu com voz firme.
- Ah, ela não está.
- Sabe se ela vai demorar?
- Creio que vai.

Lara afastou-se do portão desapontada, sem ao menos agradecer pela informação. Guiada por Ricardo entrou no carro. Na janela do apartamento, Natália observava Lara ir embora ao lado daquele homem que jamais vira na vida, chateada talvez. Mas não se importava, era assim que tinha que ser e além do mais, não pediu pra Lara aparecer de surpresa.
- Quem era? – indagou o namorado
- Uma amiga. Quer dizer, ex amiga.
- Por que não a recebeu?
- Não tenho o que falar com ela. Não quero contato. – disse nervosa.
- Nossa! Calma.
- Eu to calma. – disse enquanto se sentava no sofá e fingia ler um livro que sequer sabia o título – Preciso estudar.

Sentada ao lado de Ricardo, Lara se mostrava triste e até um pouco cansada. A alegria que sentira ao acordar foi diluída em poucos segundos.
- Ela estava lá e não quis me receber.
- Que é isso Lara? – dizia Ricardo tentando apaziguar as coisas.
- Eu sei que estava.
- Não tem como saber isso.
- Tenho sim. Você não entende, mas eu sei que ela estava lá e não quis me receber, daí mandou aquele cara mentir. – pronunciou as últimas palavras com certo desdém.
- Aquele cara é o namorado dela?
- Deve ser. – disse emburrada e virando o rosto como que a pedir um tempo em silêncio.

Ricardo entendeu o recado e dirigiu sem dizer mais nada.


POR: LIVIA QUEIROZ


(CONTINUA...)