sexta-feira, 24 de abril de 2009

Engasgada (Parte Final)


...Abriu a porta do quarto e ficou parada, a observar a outra mulher sentada sobre o corpo nu e de repente tão nojento de seu homem. Ficou apenas a observar sem nada dizer. Talvez estivesse pensando no que diria entre o barulho de corpos suados se esfregando e os gemidos da mulher que nunca mais saíram de sua cabeça. Eles não a viram entrar, não a viram como uma espectadora, e não perceberam também o objeto maléfico que Ela tirara da bolsa. A lâmina afiada, presa num suporte de plástico, fez o primeiro risco nas costas da mulher, depois outro e mais outro. Começaram as lutas de mãos e pernas tentando conter os cortes que certamente não parariam. Quando cansou de usar o estilete, correu até a cozinha deixando os dois corpos cansados, nus e ensangüentados sobre a cama, mas ainda vivos, pegou uma faca, a maior de todas, e voltou para terminar. Ao vê-la entrar assim, o marido tentou explicar, a mulher tentou suplicar, mas o seu mundo estava calmo e silencioso, sorria para o amor de sua vida, sorria para a outra ali amedrontada, sorria para si mesma e cavou os corpos com toda a violência e dor do mundo. Dilacerou sua dor, acabou com tudo.

Ela mesma ligou pra policia. Ela mesma confessou tudo. Sorrindo. Ela recusou defesa. Ela era inocente. Sempre foi. É que nascera pra fugir, mas só se foge quando se está presa. Do seu vira-lata, ela não teve mais notícia.”


Agora ela conseguiu fugir. Aprendera tudo sobre a vida(tudo o que lhe era necessário), e só agora percebeu que viver em constante fuga é a dose certa que precisa para existir e insistir.

Do Vira-lata, ela nunca mais teve notícias, mesmo!


(Por: Livia Queiroz)

sábado, 18 de abril de 2009

Engasgada (Parte II)


Uma das mãos treme e a outra segura uma pequena faca, pro caso de algum perigo se fazer surgir, e no fundo, ela sabe-se inofensiva.

Só pode estar doente.

Ela não!

A faca. A faca está doente.

Por algum motivo desconhecido, e esse motivo faz com que o objeto pontiagudo perfure do lado errado, mostrando-lhe um filete de sangue a escorrer sobre a palma sem forma de sua mão. É líquido e vermelho.

A outra mão, ainda trêmula, se fecha e um pouco de dor chega a ser sentida na ponta da língua.

Os olhos absorviam as cores do ambiente, sem nunca ter uma cor própria, e faziam um movimento milimetricamente planejado.

As gotas de sangue desenhavam no asfalto quente e cinza-sujo, as cenas no tempo do tempo. Eram como flashes, ou holofotes que acendiam e apagavam numa arritmia desconfortável.

A mente voltava à dias que se permitiu esquecer...


Lembrava-se detalhadamente:


“Abria o portão branco, sob as festas do vira-lata que adotara. Abaixou-se e o acarinhou. Percebeu o tom doloroso em seus olhos. A maquina de amar que nada pedia em troca. A companhia que nenhum problema causava.

Pegou as chaves, mas não precisou usá-las, a porta estava no trinco, certamente seu marido também havia chegado mais cedo do trabalho. Procurou na cozinha, na sala...

Ao passar pelo corredor que a levaria até o quarto, parou e viu o quadro que sempre esteve ali, mas ela nunca reparou muito. Isso a memória lembra cada detalhe:

Era uma menina sentada num balanço, com uma cesta de flores na mão, o quadro só podia ser um desses comprado em feirinhas de artesanato, os olhos da menina do quadro estavam frios, condenavam a observadora.

Na cestinha em suas mãos havia flores de todas as cores, mas tinha uma flor que havia murchado, por falta d'água talvez, ou falta de tinta.

A menina usava duas longas tranças que ficavam caídas sobre o peito e na ponta amarradas por um laço amarelo, como o seu vestido.

Por algum motivo, o pintor desse quadro deixou de pintar o dia, ou a noite...

Não havia uma paisagem atrás da menina. A pintura era das mais frias e sem vida.

Não havia beleza no rosto belo da menina.

Ela olhava a quadro distraidamente e quase, e por pouco não esquecera que estava à procura do marido.

Percebeu a movimentação no quarto, só podia ser ele.

Ensaiou o sorriso, cheio de todo amor, sim, porque o sorriso é a casca do sentimento. Descasca-se o sorriso e encontra o amor por dentro.

Abriu a porta do quarto e ficou parada ...



CONTINUA...



(Por: Livia Queiroz)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Engasgada (Parte I)

DEPOIS DE MUITO PENSAR, RESOLVI POSTAR UM CONTO. ELE SERÁ DIVIDO EM PARTES PRA "FACILITAR" A LEITURA.
ESPERO QUE CURTAM!

Quem mata,
só o faz por não querer viver. Quem foge, só o faz por não saber morrer. A morte é certa. A dor nem tanto. Mas a fuga é inevitável.

Do vira-lata ela nunca, nunca, nunca mais teve notícias.




Engasgada nas próprias palavras ela procurava abrigo, mas só encontrou um mundo de portas lacradas, no peito uma saudade a corroer-lhe e a garganta chiava num grito bobo.
Suas mãos cruzadas pareciam-se apenas com mãos cruzadas e não desenhavam nenhuma forma geométrica, e suas palmas eram murchas. Nelas nenhuma picareta poderia ousar tentar adivinhar o futuro.
Suas unhas roídas até quase onde não mais se podia, carregavam um pouco de sujeira grudada, que já dormia e acordava no lugar.
A cor de sua pele era suja. Por mais que se banhasse a cor não mudava e tinha a lama entranhada em cada poro.
Seu corpo era reto, não captava a serenidade do movimento, era crespo. Tinha carne suficiente para cobrir-lhe as costelas. Tinha talento suficiente para fazer estas carnes apodrecerem.

Sua voz não tinha eco. O seu eco virara silêncio.

Era livre.

Podia sumir e não era porque ninguém a procuraria, mas sim porque ensinara-se a não se importar. Como se fosse a primeira e a última. Como se suas unhas servissem de porto seguro ao crava-las em seus próprios braços. Ou como se suas mãos sem forma definida fossem capazes de fazer parar a quem irrompesse o cordão de isolamento.

Estava presa do lado de dentro do mundo, mas não era por isso que queria sair. Sabia-se fugitiva desde nascença, o presídio fora apenas uma desculpa. Estava predestinada. Quebrava-se e fugia. E era feliz sem saber o que era não ser. Uma criança talvez perdida, chutando a bola para o amigo mais próximo, e ao jogar a bola conforta-se, pois sabe que ela está em boas mãos, a brincadeira continuará e tudo ficará bem.
Mas isso [agora]não vem ao caso.


CONTINUA...

(Por: Livia Queiroz)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Cores do Outono (Parte II)

A manhã cumprimenta-me vermelho amarelada, e longe de mim, vejo uma sombra. A sua. O cheiro de seus cabelos é trazido pelo vento. Fecho a janela.

Sigo minha vida dentro de casa, do lado de fora do mundo e tendo a companhia apenas dos cheiros de minha rotina.

Arrumo os pensamentos, me visto apenas de esperança e tranqüilidade. Ton sur ton.

Segue o dia mais curto do que antes, passa o tempo, mais rápido do que antes. Melhor assim, menos de mim pra você.

(Por: Livia Queiroz)

Vide Cores de Outono Parte I

sábado, 4 de abril de 2009

Você pegou?

Maldito seja o português mal-falado...

Loading...
Besteirol

- Carla, deixa eu te contar...
- Deixo, conte.
- Olha só...
- Olhar o que?
- Não é pra olhar, é pra escutar.
- Escutar o que? Você não começou a contar, fica aí enrolando.
- Eu? Escuta criatura, escuta.
- ... [silêncio e cara esquisita]
- Que cara é essa?
- Cara de audição.
- Pois vou te contar, escute.
- ...
- Estava no churrasco na cobertura do Jonhyy.
- Sei, você quer dizer que tava lá naquele churrasco da laje na casa do Joãozinho Frieira.
- Você se apega a detalhes. Mas deixei-me contar:Estava lá, tomando banho de sol, tomando minha caipirinha, aí eu peguei...
- Ah, não me diga que você pegou um dos amigos do Freira.
- Não. Não me interrompa.
- Ok.
- Aí eu peguei e fui lá.
- Pegou quem e foi pra onde?
- Aí eu peguei e fui lá ver o que estava acontecendo no lado de dentro da casa.
- Sim, mas você estava pegando o que? Ou Quem?
- Que pegando menina... Tá louca?
- Explique... Explique
- Aí eu peguei né?
- O Que?
- Não é pegar de pegar. É pegar de pegar e fazer algo.
- Certo, então você pegou alguém e fez alguma coisa?
- Nããããoooo. Deixe-me continuar: Aí eu peguei e fiquei lá olhando escondida né?
- Você tava olhando o que tava pegando?
- Nãão. Eu peguei e fiquei lá escondida olhando, pra ver o que os amigos do Frieira estavam aprontando dentro de casa. Aí eu fiquei lá...
- E aí?
- Fiquei quietinha. Aí eu peguei e...
- Criatuuuuuuuuura fala a minha língua. Você pegou ou não pegou? Decida-se...
- Quanto estresse, queria te contar os detalhes, mas vou resumir: eu tava no churrasco do frieira, aí eu peguei e fiquei curiosa porque o povo tava dentro da casa há um tempão, aí eu peguei e fui ver o que era, aí eu peguei e fiquei lá escondida, aí eu escutei uma conversa, o cara pegou e falou bem assim:'eu não...
- Chegaaaaaaaaaaaaaaaa. Sabe o que eu vou fazer? Eu vou pegar e te mandar à casa da puta que te pariu.
- Calma, eu só ia dizer que fiquei lá o tempo todo observando, mas não consegui descobrir o que estavam fazendo porque na hora que eu ia descobrir, aí o Frieira pegou e ....
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhh

[A Carla pegou e assassinou a amiga.]

VOCÊ PEGOU TAMBÉM???

(Por: Livia Queiroz)
Sem inspiração pra falar de coisas realmente inspiradoras

Assistindo Scooby Doo

segunda-feira, 30 de março de 2009

Uma pétala

- O que você quer? Porque olha tanto para meus sapatos?
- Porque se importa?
- Não me importo.
- Porque pergunta?
- Você está me importunando!
- Por que lhe deixo sem resposta, ou porque olho seus sapatos?
- Quanta inconveniência!
- Se lhe importuno, se sou inconveniente, porque me dá assunto?
- Não dou. Suma de minha frente!
- Vê essa rosa? Perdi uma pétala dela. Estou a procura.
- É louco?
- Não. Você é?
- Ora! Estás a brincar?
- Não banque a portuguesa, mulher. Apenas me diga se viu em seu caminho a pétala de minha rosa.
- E eu lá tenho tempo pra essas besteiras? Deixe-me ir, estou atrasada.
- Pois vá. Repare nas etiquetas das roupas de grife de suas amigas, nos dígitos da conta bancária, nos juros... Repare apenas o seu mundo. Depois, logo mais à noite, pergunte-se se vale a pose de bem sucedida, se vale ter homens a seus pés, jovens sob seus comandos. Olhe todo o luxo de sua casa e pergunte-se com quem dividirá.
- Mas que prepotência.
- Apenas me diga: viu minha rosa?
- Não vi rosa nenhuma criatura. Vá embora. Que tipo de louco é você.
- Minha senhora procuro apenas minha pétala e sou chamado de louco. Acredito no Amor e sou chamado de tolo. Acredito nas palavras proferidas com fé e sou tido como doido. Mas não acho que eu sou nada disso.
- E qual louco acha que o é?
- Aquele que se olha no espelho, segue todos os padrões, mas carrega consigo uma loucura disfarçada e banhada a ouro. Aquele que vê sua coleção de carros importados e deseja no fundo ter uma coleção de carrinhos de brinquedo porque sabe que aprendeu desde cedo que a poluição que produz ajuda a matar o mundo, mas se obrigada a adotar a política do: “eu faço o que eu posso!”. Loucos sabem que são loucos quando andam apressados todos os dias sem saber o por que. Os que são programados para produzir e andam tão cegos que não conseguem enxergar uma pobre pétala perdida. Agora me faça um favor, levante seu pé direito que preciso pegar a minha pétala. Essa flor precisa chegar a seu destino e não entrego rosas aleijadas.
- Pega sua pétala e vai embora. Estou farta desse lenga lenga.
- Ta bom.
- Antes ir, me diz uma coisa. Pra quem é essa rosa?
- Não costumo revelar, mas vou abrir uma exceção pra você.
- Sim, diga. Porque é estranho entregar apenas uma rosa. É de bom tom entregar um buquê.
- Ah, mas a pessoa que receberá essa rosa, está tão acostumada com buquês, que não repara a beleza de cada flor.
- Loucura.
- Pois então, deixe-me ir.
- Espera, não vai me contar?
- Essa rosa pode ser entregue para seus olhos que avistaram o sucesso, mas esqueceram de enxergar o calor humano. Ou para suas mãos macias e tratadas, mas constantemente vazias de sentimentos puros. Ou quem sabe, para seu coração coberto de desesperança porque lhe falta uma pétala.

(Por: Livia Queiroz)

Ao som de Alanis Morissette
'HAND IN MY POCKET'

quinta-feira, 26 de março de 2009

A lança

Pobre coitado!
Era um poeta rouco de alma.
A alma era nua, mas a nudez era a falta da pureza de bons sentimentos.

Coitado!
Procurava em sua cama a receita da morte.
Seu corpo fora violado, seu coração traspassado pela lança assassina da dor.

Pobre alma!
Não tem cura,
Assassinou as próprias palavras.

Pergunta-te: Quem era ele?

(Por: Livia Queiroz)

Ao som de Jorge Vercilo:"Melhor Lugar"

domingo, 22 de março de 2009

P e d a ç o s

A lua em quatro crescente brilhava tímida na janela, o quarto estava enormemente vazio, de outros corpos. Ninguém além de nós, nem na cama, nem na sala, nem em qualquer outro cômodo. A casa estava morna como os nossos olhos.
Roupas jogadas pelo chão faziam o caminho até nós... E nós lá... Deitadas.

...Apen
as isso...

Percorrendo com as mãos os corpos suados, embora ainda trêmulos.
A cor que circundava nossos olhos coloria também o ambiente, falávamos coisas desconexas e inapropriadas também. O travesseiro ja havia sugado o perfume dos seus cabelos, e eu tinha a certeza que abraçaria o travesseiro pelo resto de minha vida, porque sabia que seria a última vez que tocaria daquele jeito aquele corpo.

Partiriam-se os elos dali pra frente, mas ficaríamos presas por um fio.Os lençóis queriam se rasgar também, e nada do que fosse dito podia amenizar o que estava por vir.

A timidez da Lua escondeu-a, e o Sol abriu-se por volta de algum momento da manhã, mas os nossos olhos fechados não deram muita atenção.
Cada parte da casa nos olhava como se fóssemos duas estranhas perdidas num canto qualquer.
Ela estava à beira de meus pensamentos de propósito e uma lágrima despontava de meu olho inchado.
Tantas coisas à espreita. Mas sabíamos o que tinha que ser feito embora não admitíssemos.

A calma era clara.
Cheia de dores, ela me falou de uns antigos problemas que eu conhecia de cor.
Entendi tudo. EU Não podia ser.
Ela não me faria caber ali nem que eu encolhesse mais e mais e mais.

O rastro do resto foi-me trazido em gotas.
Continuo digerindo à prestações.


(Por: Livia Queiroz)

Ao som de Chicas: "Espumas ao Vento"

terça-feira, 17 de março de 2009

Cores do Outono (Parte I)


Muita gente anda perguntando que amor indomável é esse que carrego. EU gostaria também de saber que amor é esse, embora eu saiba que ele não é mais indomável e que estou reeducando [à muito custo] meu coração. Sentir essas saudades (quase) incontroláveis, vai muito além da razão e além de qualquer coisa que seja explicável, mas por outro lado, a tal saudadezinha do que não veio não me atormenta.
Fica um gosto bom na boca dos momentos mágicos que vivi, e ainda assim de uma maneira distante. Policio-me.
Penso com cautela e não perco o controle(Surte efeito).
Muitas pessoas perguntam porque falo tanto de amor, de saudade, de solidão, etc...etc...etc...
Falo pra escapar. Pôr pra fora é um jeito de me soltar das amarras, que hoje já não seguram tão firmemente.
A pior parte já passou.


E que venham as cores do outono...


(Por: Livia Queiroz)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Contando solidões


Abro as janelas todos os dias para o Sol rasgar minha vida e é com aquele desprazerzinho corrosivo que me vem a memória uns pedaços picados de sonhos interrompidos.

Parece-me meio piegas falar de sonhos e lembranças quando sei que a vida é muito mais real, mais dura até. Mas eu tenho um puta desejo de ver as coisas acontecendo no exato momento em que meu sorriso desponta, só que o destino, o azar ou sei lá o quê, faz tudo girar quando menos espero.

Estou mesmo é praticando o desapego e o desencanto que essa coisa de “ser”, “estar”, “querer”, “ansiar”, é complexa demais pra minha mentezinha fodida.

A dor do outro já não me assusta. A minha também não.

Só sei que é ruim quando começa a chover no meio da noite e se tem apenas almofadas para abraçar. Ou umas doses a mais de conhaque e ninguém pra te acompanhar ou carregar sua embriaguez até a cama.

Já tive medo da solidão, confesso!

Hoje em dia, não tenho mais. Ser só é ruim, mas também é ruim demais dor de dente, unha encravada, um sexto sentido que me diz que você não está só agora.

Lance mais louco esse de “querer o outro”, tudo acontece quando não se espera e ainda assim percebemos a troca de energia, a resposta do corpo, os fluidos, cheiros... É rápido. Bem rápido!

E é bem rápido também quando toda a louça se quebra no chão e nas paredes da cozinha ao som de palavras insanas.

Umas roupas na mala e “depois passo pra buscar o resto”. A porta se fecha. E ficam apenas as gotas pingando na pia do banheiro. Fazer o que se as mãos que andavam juntas agora viram-se em direções contrárias?

O sono acaba. A cama cresce. A dor fica grande demais. O corpo mede o que a alma pede.

E pela primeira vez na vida, tem-se a certeza de que não há certezas.

Daí pra frente, não há mais nada que realmente se garanta...


(Por: Livia Queiroz)


terça-feira, 10 de março de 2009

Nem sonhar mais se pode!

Eu sonhei. Acho.
E acho que sonhei porque às vezes penso que esse sonho era meio-sonho-meio-verdade. Tudo junto, tudo misturado.
Erguia as mãos como quem ergue uma criança ao colo e a pousa junto ao peito fazendo-a se sentar sobre seu braço. Mas não havia criança nenhuma nesse sonho(Porque em sonhos temos uns gestos ridículos?). Só usei isso pra descrever a sutileza de meus braços.
Havia uma conversa contínua de vozes irreconhecíveis que cortava o instante, uma voz era calma, rouca e masculina; a outra era aguda imperativa e feminina.
Uma porta separava-me dos rostos das vozes. Eu conseguia entender algumas palavras, mas tudo era absolutamente solto. Cada letra uma interrogação nova.
Isso se passava numa sala, clara e oca, com mais duas portas que levavam provavelmente a lugares distintos(não sei exatamente, em sonho tudo é possível). Uma das portas era a que eu desejava entrar, a porta que levava às vozes. Fiquei lá por algum tempo, os sussuros as vezes aumentavam e eu podia ouvir um "Você" ou "Nunca, isso nunca" ou "Já chega!".

Tempos depois a porta se abriu alguns milímetros e fechou-se novamente aumentando minha agonia. A voz aguda em alto e bom som dizia:"Eu sei, eu entendo tudo". A outra voz retrucava: "É preciso calma".

A porta novamente se abriu e consegui enxergar apenas um pedacinho da sala, uns centimetros da mesa, um celular e uns papeis desordenadamente dispostos sobre a mesma. A mão masculina pegou um dos papéis, e ambas as vozes não disseram nada, a mão que lia deu um suspiro e colocou novamente o papel na mesa. Reparei nessa mão: os dedos eram grossos e comprimdos, as costas da mãos eram brancas e veias azuis eram exibidas, parecia ser uma mão firme e que calculava com exatidão as palavras que usaria: "É preciso analisar os prós e os contras".

A voz aguda parecia irredutível , de relance peguei uma escapada da cor do tecido do que podia ser um vestido, ou uma saia, ou uma calça, um tecido branco com uns detalhes em tons de azul. Era percptível o nervosismo da mulher, pois o vestido captava o movimento de suas pernas a balançar.

Acontece que se eu soubesse que aquilo era sonho, no sonho, eu poderia entrar na sala, perguntar o que era aquilo tudo, o que estavam conversar e descobrir quem eles eram. Mas eu não sabia que podia matar minha curiosidade.
Por último, a voz aguda se levantou porque eu escutei o arrastar de uma cadeira contra o piso branco da sala, em seguida o dono da outra voz se levantou também porque avistei a sua mão pendurada ao lado do próprio corpo que vestia uma camisa azul ou preta ou verde ou... ou...
A mão masculina se ergueu em forma de concha e quase se fechou, fazendo com que os quatro dedos encontrassem com o polegar da mesma e acompanhassem o ritmo da frase: "Por favor, pense bem".

A voz aguda já havia pensado e nada disse, deve ter virado as costas e saiu andando em direção a porta, consegui ouvi o barulho de seus saltos provalvelmente muito altos, tocando o chão, e se aproximando.

Eu, do lado de fora, esperando a porta se abrir e eu enfim poder encarar as duas mãos, os dois trajes, os donos das vozes.
Ela chegou até a porta, e a segurou, pude ver seus quatro dedos da mão esquerda segurando a porta a fim de abri-la, as unhas grandes e pintadas com esmalte incolor brilhavam, porque o Sol estava amarelo iluminando o ambiente.
A voz rouca ainda tentou "Pense bem", fazendo com que a outra interrompesse o movimento calmo que realizava ao puxar a porta para si, abrindo-a para mim.
Ela hesitou por alguns segundos, ouvi sua voz chorosa, e sei que escorreu uma lágrima, porque ela fungou e tirou a mão da porta(provavelmente para enxugar os olhos) mas em seguida se recompôs e voltou ao movimento interrompido.
E ela ia abrindo e ia dar de cara com minha cara curiosa e eu pouco me importava. Enxergava meu sonho e me exergava como a quem assitia um filme.

Cada centímetro aberto era um à menos para mim, e um à mais para ela (para ele eu não sei). Vi parte da sua perna coberta pelo que tive certeza ser um vestido. E ela continuava decidida, ia abrir, resmungando baixinho entre umas lágrimas teimosas. Vi um clarão quando ela abriu a porta e um rosto conhecido diante de meus olhos, muito, muito proximo dizendo:

- Livinha, meu amor, acorda. Tá na hora.

É por essas e outras que tenho preferido dormir só...

(Por: Livia Queiroz)


SELINHOOOO


Ganhei esse selinho do blog
Aleatoriamente Colorido
Muuuuuuuuuuuito obrigada pelo reconhecimento.

* Ao receber o selo:
  1. Exibir o selo e quem te indicou;
  2. Indicar blogs que o mereçam e o porquê.
Blogs Indicados:
Lugar de Leveza
Acorde em Mi Maior

Borboleteando

Todos esses blogs ( de blogueiras muito talentosas) falam com alma, com tranparencia e leveza, além de toda a simplicidade da palavra.



quarta-feira, 4 de março de 2009

Reações adversas...

Quem olha torto e me vê assim meio bamba, andando com o corpo desnivelado, mais pra direita que pra esquerda, pode pensar mal.
Pode julgar uma dor e depois disso tudo rola mesmo um efeito colateral.
O Povo vê. O Povo fala. O Povo não vê. O Povo continua a falar.

E alguns ainda ousam. Criticam. Desencantam.
Falam mal de minhas palavras, Pobres Palavras, que por vezes, em meio à confusão do dia à dia jogo sobre o tapete. Elas me escapam da boca. E reações adversas são mais que esperadas.

Ando em tom desbotado e quem vê assim de canto de olho, acha que sou infeliz, pensa que estou triste, mas juro que não! Essa é a minha cor. Meu brilho é fosco.
Não estou interessada em reformas, não seriam suficientes e não seriam justas comigo.

Meu pobre coitado argumento pende em cordão fino meio lá, meio cá. Acordo de um sonho em cores e vejo a vida acinzentada pelo olho mágico da porta ao lado.

Vou me deitar quando tiver sono, e os que me olham de espreita, pensam que sofro de insônia por preocupação e ilusões, mas é que no escuro da madrugada procuro soletrar rimas perfeitas até encontrar uma que sivra pra mim.


(Por: Livia Queiroz)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

De novo...

Eu quero é tudo de novo
Quero sua luz no fim do túnel
Quero chegar a tua fonte

Teu eu, teu ego...trêmulo

Oscilante,
Quente...

Quero seu suplício

Sua loucura branda, doce.


Eu quero é tudo de novo

Os mesmo dias

As mesmas sensações

O mesmo corpo em minhas mãos

As mesmas mãos em meu corpo
Me enternecendo

Tua boca me povoando

Saciando minha vontade

Sua vontade sendo a mesma que a minha


Eu quero

Quero você me calando

Me selando, entorpecendo


Eu quero

Quero você me embalando

Me levando, envolvendo


Eu quero é tudo de novo

Toda hora, todo dia

O tempo todo.

Por tudo!


Quero mãos.

Boca.

Sede.

Eu quero é tudo.


(Por: Livia Queiroz)

P.S.: Não demora, volta logo!!!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

D(efeito)


Não revelo os teus segredos e nem o teu sumo doce e uno.

Soletro o nome baixinho e aguardo uma resposta, penso no que escrever, no que dizer para convencer-te a proferir a palavra mágica e quebrar o encanto.

O chão continua sujo, mas voltei à minha serenidade, pois, redescobri que tudo continua acontecendo:

As pessoas andam esgotadas

Os rostos cospem suor e cansaço

Os olhos digerem misérias e medo.


Porque me cansar tanto, se no fim das contas você não me surtiu efeito?


Eu ando só, mas não acompanho a solidão...

Tenho uns amigos poucos; umas taças e uma garrafa de vinho; um violão e uma boca que me sacia a sede e sacia-se também.

Ligeiramente.

Acostumei-me. Habituei-me.

Escapo do caos sempre que posso, corro pro vento e confio meu corpo a mim mesma, sirvo-me apenas de uma leve faísca de tudo que não me permiti.

Estou satisfeita e à vontade.

Uso. Desuso. Resisto. Insisto. Proíbo. Permito.

Olho pros dois lados, atravesso e a festa começa... Tin tin



(Por: Livia Queiroz)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Pra você! MEU anjo da Guarda!


Obrigada por ter voltado
[e me feito perceber que você realmente me faz falta.]
Obrigada por ter partido
[e me dado todo o tempo do mundo]
Obrigada por me fazer perceber sem atrapalhar
[mas você tinha razão o tempo inteiro]

É que reencontrei em suas mãos meu antigo porto seguro.
E encontrei em minhas mãos a fórmula certa pra o que eu procurava.
As coisas antigas tem agora o cheiro empoeirado.
E um beijo guardado (solto no ar) sela o novo após pousar em meus lábios.


{Obrigada San, por tudo que você foi e é. TE adoro!}


(Por: Livia Queiroz)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O ensaio(ou anseio) de Chico...

Todos os dias ela passa aqui na rua com aquele ar desaforado de causar tremores na espinha.
Há nela um rebolado sacana e um jeito de olhar maroto e quando diz
de maneira ensaiada "Boa tarde!", ela amolece os lábios sempre úmidos e fala pausadamente pra que eu saboreie letra por letra.
E eu caio na dela...

Porque quero. Porque gosto.

À cada dia que passa, percebo, no entanto, que as roupas diminuem
enquanto o calor aumenta.
Ai que vontade de colocar o pé na frente bem na hora que ela passa
pra ela tropeçar e eu ter a oportunidade de toca-la enquanto a ajudo a levantar-se... ou quem sabe aprecio o que há por baixo da sua micro saia.
É incrível, mas o cheiro dela sempre chega antes, e vem abrindo
caminho para seu desfile hipnotizante.

Cruel! Ela é Cruel!


E rebola, sei que é pra mim. Só pode.

Vez ou outra ela olha pra trás, e outro dia pude perceber uma piscadela.

Será que estou fantasiando?

Aposto que ela me percebe e ao chegar em casa comete as mesmas
loucuras que eu cometo todas as vezes que ela passa. E quanta "loucurinha" deve haver embaixo daquela saia!
"Quem é ela? Vivo a me perguntar!
E esqueço-me...
Disfarço apenas.


(Por: Livia Queiroz)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Blá-Blá-Blá

ELEMENTOS ABSURDOS QUE COMPÕEM ESSE ESCRITO:

I° Uma "Possível-Futura-Escritora" em crise.
II° Um livro sendo escrito nesse exato momento (E quem sabe publicado brevemente...)
III° Um pouco de cansaço por conta de mais um dia de trabalho.
IV° Medo
V° Gente nova cruzando meus passos de pernas AINDA bambas.

O TAL ESCRITO:

Sou eu em carne e osso, cambaleando ainda por causa de umas míseras migalhas que recolho em dias que me sinto só.
Sou eu esperando que cada um de meus alunos leia a sua redação que tem como título a pergunta: Quem sou eu?
-
No fim das contas, sou eu apenas esperando e eu nem construi minha própria redação. Não questionei a vida. Não andei perguntando nada...


Alguém me falou de alguma amargura em minhas palavras e acredito que há um tanto disso ou daquilo, mas no fim: Sou eu mesma!
Cheinha de suposições...

E quem não duvida?

E quem não hesita?

Palavras de um momento bom e passado ainda me perturbam. E ficam de espreita até que, quando eu me distraio, elas me invadem.
O medo é só de não conseguir me livrar disso a tempo, porque ventos novos estão chegando e ainda há motivos justos e certos para querer aproveitar um tantinho do que a vida me der.
Vou indo, pisando em ovos... O caminho é estreito ainda, mas a vontade é larga.

E lá Vou eu sorrateiramente...

O ABSURDO MOR:
"Os caminhos se separaram, e é só isso que há de concreto, mas ainda assim há uma dose de prazer e contradição em todas as lembraças e em todos os desejos que circulam na distância entre meus lábios e seus olhos... lindos... Ah, esses olhos..."

UMA TEORIA: .Tempo.

NOVA FRASE(PERGUNTA BÁSICA): "Pra que tanta coisa?"

(Por: Livia Queiroz)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ... Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ... Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ

Cá(aqui)eu me lembro que houve um tempo(remoto) que pegamos na mão da estrela mais próxima e aí seguimos pelo caminho mais longo, só pra sentirmos por mais tempo todas as vibrações que nossos corpos emanavam.

Era sonho?

E cá(hoje) eu lembro que os beijos poderiam ter sido mais longos, as palavras poderiam ter sido mais intensas, e tempo poderia ter sido poupado. Poderíamos ter esticado o prazo de validade.

Tudo sonho?

E cá(dentro) ainda rolam suas palavras ao som da nossa trilha sonora; ainda existe uma espécie de indecisão, uma luta entre alma que quer ficar e corpo que precisa partir; ainda tenho uns pedaços seus; uns bilhetes; umas coisas que nós esquecemos de catar.

Ainda não acordei!

(Por: Livia Queiroz)


MUDANDO DE ASSUNTO

RECEBI UM MEME DO PEDRO BEROCAN DO BLOG RESTO DE VERSO, COM AS SEGUINTES INSTRUÇÕES:

1. Colocar o link de quem te indicou pro meme;
2. Escrever estas 5 regras antes do seu meme pra deixar a brincadeira mais clara;
3. Contar 6 fatos aleatórios sobre você (essa é a proposta da brincadeira!);
4. Indicar 6 blogueiros pra continuar o meme;
5. Avisar para esses blogueiros que eles foram indicados.

  • FATOS ALEATÓRIOS:
  1. Tomei mamadeira até os dez anos.
  2. Morro de medo de agulha (exames de sangue pra mim são uma tortura); Palhaços e Barata
  3. Toco violão todos os dias. É sagrado!
  4. Só gosto escrever com caneta preta.
  5. Tenho mania de fazer tudo ouvindo música. Tudo mesmo!
  6. Meus poemas só me vem à mente quando estou morrendo de sono. E acabo sempre digitando no celular pra depois transcreve-lo num papel e em seguida digitá-lo(é um processo! aff...rsrs)

  • BLOGS INDICADOS
  1. Devaneios e Loucuras
  2. Obra XXI
  3. Blog do Chico
  4. Clube da Luluzinha
  5. Acorde em Mi Maior
  6. Borboleteando


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Surto Alto

Resolvi fazer um post com apenas quatro palavras e cores que estão interligadas...
Divirtam-se com suas interpretações...

Clique na imagem para ampliar!


P.S.: Comentários do tipo: "Blog legal", "Gostei do Blog" etc... etc... etc... são dispensados!
Ja cansei desses comentarios.
Vamos ser criativos né?!

sábado, 24 de janeiro de 2009

A última carta que te escrevi

Foi assim:
Foi bem no fim; no limite(no meu e no seu); foi no nível mais alto das minhas suposições e de sua cegueira (momentânea).
Era madrugada de domingo (quase segunda), um dia que passava dolorido por mim porque eu sabia que começaria a sua semana e com ela viria todas as complicações, todos os problemas se tornariam mais nitidos e nossa distância ficaria cada vez maior.
Oh (cara de espanto!!!), eu sofria por sua dores.

Eu escrevia no meio da madrugada certa carta cortada por umas palavras que eu não esqueço, porque nunca saíram do papel.

Dizia umas coisas doídas. Falava de Saudade.
Dizia assim: "[sinto]Saudade de seu ar sereno... Do tom doce de falar (quando não briga por bobagem)... Saudade de seus olhos, que às vezes se perde no meio da conversa e transforma-se em voz, perguntando: 'Ahn?'; 'Foi?'; 'Ah, tá!É?'"

Eu falava também das briguinhas sem motivos concretos. Alguém lançava a faísca e pronto: o incêndio ja tava formado. Foram inúmeras queimaduras. GRAVISSIMAS!

E se não me falha a memória, lembro que escrevi no finalzinho:
"Sonha com os Anjos e dorme comigo.
Por mais que doa, te amo pra sempre.
Ficaremos bem."
Enquanto escrevia rezava baixinho para que algum anjo adentrasse pela janela e te levasse a minha carta. A última.

Os Anjos não vieram. Nem passaram por perto.(Decepção!!!)
Só hoje sei porque...
Eles sabiam que eu havia esquecido de escrever tanta coisa...

Esqueci de escrever que eu sabia que o tempo passaria, e a dor ia adormecer, mas um dia nos encontraríamos na rua e talvez nem nos cumprimentássemos. E nesse dia, você iria me mostrar o novo brilho em seus olhos e um outro espaço preenchido por um amor novo, um tal qualquer.
Esqueci de dizer que eu estava do seu lado e você não viu. E que não cobro o tempo que passou, só não consigo entender o que você também nunca soube me explicar.
Esqueci de dizer também que um dia talvez o que eu sinto (hoje com menos intensidade) morra de vez e quando isso acontecer, eu no meu canto e você no seu, lembraremos que somos apenas seres humanos.

E assim as linhas ficaram poucas mas lembrei do que esqueci. Como não ia mesmo te entregar essa carta nem que os Anjos me aconselhassem, deixei-a guardada pra o futuro responder.
E a outra foi transformada em pequeninos pedaços risonhos no lixo...

P.S.: A outra carta atirei mesmo no LIXO!
Não só a carta!


(Por: Livia Queiroz)